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Histórico da Tradução na USP

 

Os Estudos da Tradução se fazem presentes na Faculdade de Filosofia desde o seu início, a partir de 1934, com a constituição dos seus cursos de Letras, nas áreas que atualmente denominamos “modernas” (anteriormente, “neolatinas” e “anglo-germânicas”) e clássicas (latim e grego). Nesse sentido, a preocupação com a tradução (ainda que não tipifique, nitidamente, uma “formação acadêmica em tradução”) é coextensiva com a antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) e a atual Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e, portanto, com a própria Universidade de São Paulo.

No decorrer dos anos 70 surgiram os primeiros cursos superiores de formação de tradutores no Brasil. Criado em 1978, o Curso de Tradução do Departamento de Letras Modernas (DLM) da FFLCH funcionou por dois anos como modalidade da graduação em Letras, oferecendo aos estudantes a opção de cursarem, no período vespertino, uma outra habilitação além do bacharelado e da licenciatura.

A partir de 1981, o Curso passou de modalidade da Graduação a curso extracurricular (primeiramente com uma carga horária de 1240 horas, reduzidas mais tarde para 720), e assim funcionou até 1992, quando um grupo de professores formado por representantes de todas as Áreas do DLM, valendo-se de uma legislação em vigor na Universidade e convicto de que o curso deveria figurar no currículo da Universidade, decidiu transformá-lo em Curso de Especialização de Longa Duração (720 horas), ou seja, num Curso de Pós-Graduação lato sensu (doravante Cetrad). Nesse formato, o Cetrad funcionou gratuitamente até dezembro de 2004; a última turma formada pelo Cetrad foi a de 2006.

Foi na década de 80 que se delineou, graças ao Cetrad, o perfil dos Estudos de Tradução na USP. Pode-se dizer que a diversidade de abordagens e as interfaces com diferentes áreas do saber caracterizaram e caracterizam nossos estudos face ao cenário nacional e internacional. Um passo importante nesse sentido foi a expansão do público-alvo do Cetrad, ocorrida por volta de 1985, de um público formado eminentemente por alunos de Letras para profissionais e interessados de qualquer área do saber com bons conhecimentos da língua estrangeira com a qual desejavam trabalhar. Também foi durante esse período que boa parte dos docentes então envolvidos com o Cetrad, motivados pelo trabalho sistemático com estudantes de diferentes áreas, defenderam suas teses de doutorado e passaram, assim, a atuar na formação em pós-graduação.

Tal atuação se intensificou no período subsequente (os anos de 1990). Os registros de ingresso de estudantes nos programas de pós-graduação, mantidos pelas Áreas do DLM (alemão, espanhol, francês, inglês e italiano), podem atestar o fluxo de interessados que, tendo concluído sua formação no Cetrad, prosseguiram em seus estudos nos níveis de mestrado e doutorado, impulsionando a criação de linhas e projetos de pesquisa produtivos, aumentando a produção discente desses Programas, alinhando as pesquisas desses Programas com o que havia e há de mais atual no campo dos Estudos da Tradução e dando visibilidade a essa produção, não apenas no plano acadêmico, mas também junto ao grande público. Quanto a esse último aspecto, referimo-nos em especial ao conjunto de prêmios de tradução obtidos por alunos e docentes da tradução ao longo dessas três décadas: Prêmios Jabuti, APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), Monteiro Lobato (da FNLIJ – Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), entre outros.

No momento de elaboração da proposta do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução (Tradusp), já havia entre os professores de Letras na FFLCH três vencedores do Prêmio Jabuti por tradução literária:

Pedro Ghirardi, em 1993, com Orlando Furioso (Ateliê).

Mário Laranjeira, em 1997, com Poetas de França Hoje. 1945-1995 (EDUSP).

Mamede Jarouche, em 2006 com Mil e Uma Noites, vol. 1 (Globo), e em 2010 com O Leão e o Chacal Mergulhador (Globo).

Dois importantes prêmios de tradução também haviam sido recebidos pelo Prof. João Azenha Junior:

1986:   Prêmio APCA: melhor tradutor de literatura infanto-juvenil com a série O pequeno vampiro, de Angela Sommer-Bodenburg, APCA - Associação Paulista de Críticos de Arte.

1996: Prêmio Monteiro Lobato, categoria Melhor Tradução/Jovem, com a tradução O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Seção Brasileira da IBBY.

Na Pós-Graduação stricto sensu, os Estudos da Tradução constituem ora projetos individuais, ora linhas de pesquisa, em boa parte dos programas credenciados na área de Letras, não apenas nos programas do Departamento de Letras Modernas. Mesmo na área de Literatura Brasileira, registram-se trabalhos dirigidos para a tradução. Num intervalo de quase 50 anos (1972 a 2010), havia mais de 300 dissertações e teses catalogadas no Banco de Dados Bibliográficos da FFLCH/USP para as quais tradução, tradutor ou tradutologia constituem palavras-chave, distribuídas nos diferentes programas da FFLCH, e seis teses de livre-docência. Esses números demonstram que os Estudos da Tradução configuram uma das vertentes mais produtivas da pesquisa em Letras, a despeito de sua evidente dispersão. Nesse cenário, foi criado o Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução (Tradusp).  

Paralelamente aos Estudos da Tradução nos níveis de pós-graduação e especialização, sempre foram ofertadas, no nível da graduação, disciplinas optativas de tradução. Desde 2007, graças ao apoio da Reitoria ao projeto de docentes do DLM "Por uma opção em tradução no bacharelado de Letras", a contratação de docentes de tradução nas cinco áreas do DLM possibilitou a oferta mais sistemática de disciplinas optativas, eletivas e obrigatórias de tradução no bacharelado de Letras. Isso tem assegurado uma consistência e uma continuidade mais definidas com a pós-graduação, no ensino e na pesquisa e, por derivação, também com a cultura e extensão.

Nas duas décadas que antecederam a criação do Tradusp, as atividades em torno da tradução vinham sendo bastante intensificadas. Além das dissertações e teses defendidas e das disciplinas de pós-graduação ministradas nos cinco programas de Pós-Graduação do Departamento de Letras Modernas – a saber: Inglês, Francês, Italiano, Espanhol e Alemão –, vínhamos tendo frequentemente palestras de professores visitantes de renome mundial na área de Estudos de Tradução, que também ministraram cursos no DLM- FFLCH. Entre eles destacam-se:

Anthony Pym (Tarragona): cursos de pós-graduação em 1993 e 2008;

Theo Hermans (UCL London): curso de pós-graduação em 1996;

Douglas Robinson (Lingnan Univ., Hong Kong): palestra em 1997;

Yves Gambier  (Turku, Finlândia): palestra em 2003;

Laurence Venuti (Temple, Philadelphia): palestra em 1998;

Georges Bastin (Univ. Montréal): curso de pós-graduação em 2008;

Paul Bandia (Univ. Concordia, Montréal): curso de pós-graduação em 2009;

Rosemary Arrojo (Binghamton, NY, ex-Unicamp): palestras em 2004 ;

Nelson Ascher, jornalista e poeta: palestra em 2008;

Maria Tymoczko (Univ, Massachusetts, Amherst): palestra em 2006;

Edwin Gentzler (Univ, Massachusetts, Amherst): palestra em 2010;

Radegundis Stolze (Univ. Darmstadt): curso de pós-graduação em 2003;

José Lambert (Univ. Leuven): curso de pós-graduação junto com Anthony Pym em 1993 e palestra em 2009;

A boa receptividade dessas palestras, cursos e minicursos, assim como sua sistematicidade, fizeram com que um “Ciclo de Palestras sobre Tradução” fosse organizado a partir de 2010 pelo DLM e pelo Citrat (Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia da FFLCH USP). Dele participam anualmente diversos palestrantes da USP, professores visitantes e alunos que completaram seus doutoramentos e mestrados em temas dos Estudos da Tradução.

No que respeita à produção acadêmica, os professores que atuam no campo dos Estudos de Tradução, conforme demonstram seus currículos na Plataforma Lattes, já concentravam atividade importante, fosse na publicação de estudos sobre a tradução, fosse na publicação de traduções. À guisa de exemplo, podemos mencionar os seguintes livros em Estudos da Tradução publicados antes do início de funcionamento do Tradusp:

Francis Henrik Aubert As (in)fidelidades da tradução: servidões e autonomia do tradutor (EDUNICAMP 1986).

Mário Laranjeira, Poética da Tradução - Do Sentido à Significância (EDUSP 1993)

John Milton O Poder da Tradução (Ars Poética 1993) (posteriormente publicado como Tradução: Teoria e Prática, Martins Fontes 1998), O Clube do Livro e a Tradução (EDUSC 2002).

João Azenha Junior: Tradução técnica e condicionantes culturais. Primeiros passos para um estudo integrado (Humanitas 1999).

Michel Sleiman, A arte do zajal. Estudo de poética árabe (Ateliê 2007); A Poesia Árabe-Andaluza: Ibn Quzman de Córdova (Perspectiva 2000).

 

Além da produção acadêmica em Estudos da Tradução, os docentes atuais e os que iniciaram o programa de pós-graduação também já haviam contribuído com importantes traduções junto ao mercado editorial:

João Ângelo Oliva: O livro de Catulo (EDUSP 1996), Falo no Jardim: Priapéia Grega, Priapéia Latina (Ateliê 2006).

John Milton (com Alberto Marsicano): Nas Asas Invisíveis da Poesia, traduções da poesia de John Keats. (Iluminuras 1998); Death and Life of Severino, tradução de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto (Pleiade, 2003); (com Alberto Marsicano) O Olho pela Força da Harmonia, traduções da poesia de William Wordsworth (São Paulo 2007); (com Alberto Marsicano) Sementes Aladas, traduções da poesia de Percy Bysshe Shelley (Ateliê, 2010).

Francis Aubert: Novas Aventuras de Askeladden. (EDUSP 1995); Askeladden e Outras Aventuras (EDUSP 1992); Ibsen (Cotovia 2009).

Lenita Esteves (com Almiro Pisetta): O Senhor dos Anéis (Martins Fontes 1994).

Mário Laranjeira: Yves Bonnefoy, Obra poética (Iluminuras 1998).

Heloísa Pezza Cintrão (com Ana Regina Lessa). Culturas híbridas, de Néstor García Canclini (Edusp 1997).

Álvaro Faleiros: Paratextos editoriais, de Gérard Genette (Ateliê 2009), Kalevala primeiro poema (Ateliê 2009); Caligramas de Guillaume Apollinaire (Ateliê 2008); Poètes du Noroit (Bibliothèque Québécoise 2003) Latitudes: 9 poetas de Quebec (UNAM - Universidad Nacional de México, 2003); Latitudes: nove poetas do Québec (Nankin 2002); O Bestiário de Guillaume Apollinaire (Iluminuras 1997).

João Azenha Junior: Conceitos Fundamentais da História da Arte. O problema da evolução dos estilos na arte mais recente. (Martins Fontes, 1984). Indivíduo e Cosmos na Filosofia do Renascimento (Martins Fontes, 2001); O mundo de Sofia. Romance da História da Filosofia (Companhia das Letras, 1995)

Maurício Santana Dias: Trabalhar Cansa, de Cesare Pavese (Cosac Naify 2009)

 

Contextualização institucional e regional da criação do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução

A constituição de um programa de pós-graduação em Estudos da Tradução na USP não se justificou apenas pelo histórico desses estudos nesta Instituição e pelas demandas sociais interna (alunado) e externa (mercado de trabalho e alunado), mas também como fator de confluência da produção docente e discente nessa área, nos diferentes programas de pós-graduação da FFLCH. Além disso, o Tradusp configurou-se como um espaço de visibilidade desses trabalhos, dos Estudos da Tradução no Brasil, e como uma efetiva concretização da interdisciplinaridade enquanto meta do projeto da FFLCH.

Esta Faculdade, instalada no maior centro econômico do país e da América Latina, vem formando profissionais em nível de graduação que atuam no mercado de trabalho, tanto na capital quanto no estado de São Paulo, em diferentes vertentes da tradução. Exemplos disso, na cidade de São Paulo e região, são a tradução editorial, juramentada, a assessoria a eventos (interpretação consecutiva e simultânea), a tradução de textos técnicos, a utilização das ferramentas da tradução para o intercâmbio científico-cultural e para a promoção do comércio exterior brasileiro, a indústria do entretenimento e, dentre outros, a localização em tecnologia da informação. A ausência de entidades classistas que efetivamente congreguem a maioria dos tradutores e intérpretes impede a obtenção de dados quantitativos suficientemente confiáveis e representativos para caracterizar, em detalhe, a situação atual e as suas potencialidades perceptíveis. No entanto, os indícios dessa realidade multifacetada colocam em destaque, por um lado, a importância das línguas e da tradução no mundo globalizado atual, e, por outro, demonstram que há uma carência em termos de qualificação dos profissionais que nela atuam.

Desse modo, é possível traçar caminhos da pesquisa em Tradução por algumas características básicas do mercado de trabalho, extraídas, em parte, da vivência pessoal dos docentes desta FFLCH e de contatos com algumas entidades representativas da área (Sindicato Nacional dos Tradutores – Sintra; Associação Profissional dos Intérpretes de Conferência – Apic; Associação Profissional dos Tradutores Públicos e Intérpretes Comerciais do Estado de São Paulo – Atpiesp; Câmara Brasileira do Livro – CBL; SNEL – Sindicato Nacional dos Editores de Livros; União Latina; IBICT/MC&T; outras instituições de ensino e pesquisa, notadamente Associação Brasileira de Pesquisadores em Tradução – Abrapt; Associação Brasileira de Tradutores – Abrates; PUC-SP; Unesp/SJRP; PUC-RJ; UFRGS; UFMG; UFSC; entre outros): a atuação do tradutor fundamentalmente como um prestador de serviço terceirizado, seja como profissional autônomo ou sob alguma forma societária (normalmente, uma S/C Ltda.); a crescente setorização das competências: da figura do tradutor genérico, oferecendo seus serviços em qualquer área, ao estreitamento maior de perfil temático, centrado em grandes áreas; a dupla direção da tradução praticada no mercado: como resultado da progressiva internacionalização do país, a demanda atual do mercado da tradução resulta em um equilíbrio maior entre a tradução senso estrito (do idioma estrangeiro para o vernáculo) e a versão (do vernáculo para o idioma estrangeiro); a quase que total informatização do trabalho do tradutor.

Nesse contexto, as perspectivas da implantação de uma pós-graduação em Estudos da Tradução na FFLCH/USP foram, desde o início promissoras, uma vez que tanto os tradutores profissionais já inseridos no mercado como os aprendizes que se formariam em instituições brasileiras ou estrangeiras (muitas faculdades da região formam tradutores e profissionais de Letras que atuam nesse mercado) poderiam nela buscar uma formação substancial e consistente, fruto da larga e diversificada experiência dos docentes envolvidos no programa.

Distribuída em três linhas de pesquisa, a proposta de criação do programa intentou recobrir as demandas identificadas e, ao mesmo tempo, ser coerente com as áreas de atuação dos docentes que integraram sua equipe inicial. A partir de uma só área de concentração, os Estudos da Tradução, as linhas dispuseram-se em “Tradução e corpora”, “Tradução e recepção" e “Tradução e poética”. A proposta veio, portanto, permitir a convergência de esforços realizados até aquele momento e a visibilidade dos trabalhos desenvolvidos em Estudos da Tradução na Instituição, que podem ser vistos como fator de interdisciplinaridade e internacionalização no interior da área de Letras.

Seu alcance efetivo, porém, é maior. A dimensão cultural da tradução envolve, inevitavelmente, a Antropologia e, em certa medida, a Sociologia. Em uma das vertentes mais produtivas dos estudos da tradução, a Historiografia da Tradução, entrelaça-se com a História da Cultura e das Idéias, além da História Literária. O avanço da tecnologia da informação aplicada ao processamento das línguas naturais e, especificamente, à tradução e à terminologia, gera uma evidente interface com a Ciência e a Engenharia da Computação. Finalmente, tanto a temática como a tipologia textual do grande volume de traduções e versões geradas no cotidiano da vida social, econômica, cultural, científica e política potencializam a interdisciplinaridade da área de Letras com praticamente todas as demais áreas do saber e do saber-fazer. No caso específico da Universidade de São Paulo, que assumiu, dentre suas prioridades, a efetiva internacionalização de suas atividades de ensino e pesquisa, a tradução constitui uma das ferramentas preferenciais para a interação proposta, ao lado do desenvolvimento das competências ativas nas principais línguas de difusão do conhecimento.

Cumpre ressaltar ainda que o projeto de uma Pós-Graduação em Estudos da Tradução sempre foi caro ao DLM e ao DLO (Departamento de Letras Orientais), conforme atestam as atas de Conselho Departamental em que o assunto foi discutido, não apenas por singularizar os diplomas outorgados – com enorme benefício aos formados –, mas também porque concretizaria a antiga vocação desses Departamentos e das Letras em geral, expressa em seus Planos de Metas. Pouco antes do projeto de criação do programa, por ocasião de uma avaliação externa do DLM, este aspecto foi percebido e fortemente incentivado pelos avaliadores externos.

Integraram a equipe inicial do Tradusp, na FFLCH USP, dois docentes do DLO, do Curso de Árabe, Mamede Jarouche e Michel Sleiman, e previu-se a possibilidade de receber outros professores dos Cursos de Russo, Japonês, Chinês e Hebraico. Do DLCV (Departamento de Línguas Clássicas e Vernáculas) integrou a equipe inicial João Ângelo Oliva, do Curso de Latim, prevendo-se já a possibilidade de acolher mais professores desse Departamento, especialmente dos cursos de Latim e Grego, onde a prática da tradução literária de textos das línguas clássicas é uma forte tradição. Após o início do funcionamento, incorporaram-se ainda os professores do DLCV Luiz Antônio Lindo (Latim) e Eduardo Navarro (Tupi).